MILAGRE // Dimensões reduzidas levaram compradores a recorrer aos arquitetos para comportar a mobília da casa
Você já ouviu falar da Lei 16.292? É a Lei de Edificações e Instalações na Cidade do Recife. Foi editada em janeiro de 1997 em substituição a anterior, de 1961.

Boa Viagem continua na preferência para quem procura apartamento para morar. Lá se encontram tanto os grandes quantos os pequenos imóveis. Foto: Ricardo Fernandes/DP/D.A Press - 28/12/07 |
Determina que "as edificações destinadas ao uso habitacional possuirão, necessariamente, ambientes para estar, repouso, alimentação e higiene" e área mínima de 18 metros quadrados. Só falta colocar a plaquinha: "Bem-vindo à casa de bonecas". O encolhimento dos apartamentos fez com que muitas pessoas - que antes não tinham problema algum para mobiliar e decorar a casa - passassem a recorrer aos arquitetos. Exigindo não menos que um milagre.
"O cliente procura com a ideia do que pretende colocar no apartamento. Sonha em colocar no quarto a cama de casal, duas mesas de cabeceira, guarda-roupa, cômoda. Mas quando vemos o cômodo, não cabe nem a cama com o guarda-roupa", diz Lourival Costa, arquiteto e professor da UFPE, que defendeu dissertação de mestrado sobre o dimensionamento dos apartamentos. Ele lembra que a lei antiga estabelecia dimensões e áreas mínimas para todos os compartimentos. Na nova lei foi abolida a área mínima (que era de oito metros quadrados). Fica valendo apenas a determinação de se traçar no piso um círculo imaginário de diâmetro mínimo de 2,40 metros.
"Com esse diâmetro mínimo, um quarto passa a ter 5,76 metros quadrados. Um colchão padrão para uma cama de casal padrão hoje tem 1,60 por 2 metros. Tem construtora que já coloca esse tamanho mínimo em um dos quartos quando são três", conta o arquiteto, que hoje se dedica exclusivamente à Universidade. Lourival diz que um resultado imediato da redução do imóveis é o uso quase que unânime dos espaços verticais. Fica tudo suspenso, tudo embutido. Prateleiras percorrem todo o ambiente. As camas ficam encostadas às paredes. O simples ato de forrar a cama torna-se mais difícil. Especialmente para quem tem mais idade ou quilos extras.
Lourival Costa chama atenção para os prejuízos ergonômicos (do bem-estar) dos moradores e lembra que, enquanto o tamanho dos imóveis diminuiu, as pessoas aumentaramde tamanho. Para cima e para os lados. "O nordestino ficou quatro centímetros mais alto. O tamanho dos móveis aumentou. Há mais equipamentos tecnológicos e eles são maiores. Hoje, as TVs de plasma são enormes", diz Lourival, reforçando, contudo, que entende que as construtoras produzam os imóveis compatíveis com as condições de pagamento dos clientes. "Hoje, o arquiteto de interiores precisa fazer malabarismo", resume.
Semelhanças - A situação em Pernambuco reflete a redução verificada em todo o país. Cinco anos atrás, o Núcleo de Estudos sobre Habitação e Modos de Vida (Nomads), da Universidade de São Paulo (USP), divulgou uma pesquisa mostrando que, em 50 anos, o tamanho da sala de estar de um apartamento de São Paulo encolheu 37,8%. A redução no quarto tinha sido ainda maior (50,26%). Enquanto na década de 70 um apartamento de dois quartos possuía, em média, uma área média de 85 metros quadrados, no início deste século, a área não passava de 65 metros quadrados. Hoje é raro encontrar até isso.
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Gigantes ainda existem
Os gigantes ainda existem. São mais raros, mas ainda existem. E têm público fiel. Os dados do IVV mostram que, em 2008, foram ofertadas 162 unidades com área acima de 200 m2, representando 2,5% do total na Região Metropolitana do Recife. A Queiroz Galvão tem para vender apartamentos no Edifício Maria Ângela Lucena. Fica na Avenida Boa Viagem. São 401 metros quadrados, quatro suítes com vista para o mar, sala para seis ambientes. Cabem dentro dele nove apartamentos do Grand Village, braço popular que a empresa vai lançar em Paulista.
O preço de um apartamento no Maria Ângela chega a ultrapassar R$ 2 milhões. "É o maior imóvel à venda hoje da empresa. Para um público bem exclusivo", diz Carol Boxwell, superintendente comercial e de marketing da Queiroz Galvão. A cobertura duplex tem quase 800 metros quadrados, com direito a 10 vagas de garagem. Já o Alphaville Francisco Brennand, que está sendo erguido às margens da BR-408, no Curado, tem 389 lotes de 440 metros quadrados. Há ainda outros 13 espaços comerciais, onde serão instalados farmácias, padarias, lojas de conveniência.
Mesmo quando são um pouco menores que 200 metros, os apartamentos de luxo procuram compensar oferecendo mordomias. Um exemplo é o condomínio Evolution Shopping Park, que a Moura Dubeux vai construir na vizinhança do Shopping Recife. Serão cinco torres. Além de entradas exclusivas para o shopping, os futuros moradores terão acesso a um parque aquático com 930 metros quadrados com várias piscinas e mais de 50 equipamentos de lazer e comodidade.
Se os preços dos empreendimentos novos ficam nas alturas, aqueles que não abrem mão de muito espaço para morar correm para os edifícios antigos, como os da Rua da Aurora, que têm apartamentos com dimensão acima dos 100 metros, com a vantagem de um condomínio mais em conta, por quase não terem equipamentos de lazer. A região vem sendo procurada por casais jovens e profissionais liberais.